Renúncias calculadas: Quando sair é a estratégia

Um governador renuncia horas antes de o tribunal retomar a votação pela cassação. Advogados abandonam o plenário do júri no primeiro dia de julgamento. São manobras distintas, em foros distintos, mas que colocam a mesma pergunta ao sistema de justiça: até onde o Direito tolera que o jurisdicionado escolha não ser julgado?

NA PAUTA DE HOJE

  • Castro deixa o governo do Rio na véspera da sessão no TSE que pode torná-lo inelegível

  • Advogados de Jairinho abandonam o Tribunal do Júri e julgamento de Henry Borel é suspenso

  • Site e aplicativo da Receita Federal travam no primeiro dia de entrega da declaração do IRPF

  • Após dez dias na UTI, Bolsonaro é transferido para quarto e aguarda decisão de Moraes

Cláudio Castro renuncia ao governo do Rio às vésperas de julgamento no TSE

Foto: Governo do Rio de Janeiro

JURISPRUDÊNCIA EM FOCO

O governador Cláudio Castro (PL) renunciou ao cargo na segunda-feira (23), um dia antes de o Tribunal Superior Eleitoral retomar o julgamento dos recursos que pedem sua cassação e inelegibilidade por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022.

O placar parcial no TSE registra dois votos pela cassação — da relatora, ministra Isabel Gallotti, e do ministro Antonio Carlos Ferreira. Outros cinco ministros ainda não votaram. O julgamento havia sido suspenso em 10 de março por pedido de vista do ministro Nunes Marques.

O processo apura a contratação de 27.665 servidores temporários por meio do Ceperj e da Uerj, a um custo de R$ 248 milhões, para beneficiar aliados durante a campanha. Mesmo com a renúncia, o TSE pode julgar o mérito normalmente — o que está em jogo não é apenas a perda do cargo, mas a inelegibilidade por oito anos.

O desembargador Ricardo Couto, presidente do TJ-RJ, assumiu o governo interinamente. Castro, que lidera pesquisas para o Senado com 23% das intenções de voto, disse em cerimônia no Palácio Guanabara que encerra o mandato "em busca de novos projetos".

Caso Henry Borel: defesa abandona o Tribunal do Júri e julgamento é suspenso

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasi

JURISPRUDÊNCIA EM FOCO

Os advogados de Jairo Souza Santos Júnior (Dr. Jairinho) abandonaram o plenário do 2º Tribunal do Júri do Rio de Janeiro na manhã de segunda-feira (23), no primeiro dia do julgamento pela morte do menino Henry Borel, de 4 anos, ocorrida em 8 de março de 2021.

A defesa requereu a suspensão sob alegação de falta de acesso integral às provas — especificamente, dados extraídos de um notebook de Leniel Borel, pai da vítima. Sustentou que houve "seleção prévia" do material, comprometendo a cadeia de custódia de dados eletrônicos. A juíza Elizabeth Louro indeferiu ambos os pedidos.

Com a saída dos advogados, a magistrada classificou a conduta como "inadmissível" e determinou:

  1. Comunicação à OAB para apuração disciplinar

  2. Nomeação da Defensoria Pública para atuar na defesa de Jairinho

  3. Redesignação do julgamento para junho de 2026

A juíza também revogou a prisão preventiva de Monique Medeiros, mãe de Henry, por excesso de prazo — ela respondia em liberdade monitorada, mas voltou a ser presa durante a instrução. Jairinho permanece detido. O ex-vereador é acusado de homicídio triplamente qualificado e tortura.

IRPF 2026 estreia com falhas: site e app da Receita travam no primeiro dia

Foto: Ministério da Fazenda

REGULATÓRIO

Contribuintes que tentaram enviar a declaração do Imposto de Renda no primeiro dia do prazo, segunda-feira (23), encontraram instabilidade generalizada no site e no aplicativo da Receita Federal. Relatos incluíram falha na autenticação via Gov.br, telas em branco no programa gerador e declaração pré-preenchida sem dados ou com informações incompletas.

O pico de reclamações no Downdetector ocorreu às 10h55 para o Gov.br e às 10h11 para o sistema da Receita. O erro mais frequente foi a mensagem de "processo de autorização incompleto", que impedia o acesso tanto pelo computador quanto pelo celular.

Os sistemas foram restabelecidos por volta das 11h44. A Receita estima receber 44 milhões de declarações neste ano. O prazo vai até 29 de maio, com multa mínima de R$ 165,74 por atraso. As restituições do primeiro lote estão previstas para o mesmo dia do encerramento do prazo — com prioridade para idosos, PcDs e contribuintes com Pix cadastrado.

Bolsonaro deixa UTI após dez dias e aguarda decisão de Moraes sobre prisão domiciliar

Foto: Antonio Augusto/STF

JURISPRUDÊNCIA EM FOCO

O ex-presidente Jair Bolsonaro recebeu alta da UTI do Hospital DF Star na segunda-feira (23) e foi transferido para um quarto, após dez dias internado com diagnóstico de broncopneumonia aspirativa e lesão renal aguda. O boletim médico de Brasil Caiado registrou "evolução favorável, sem intercorrências".

No mesmo dia, o procurador-geral da República, Paulo Gonet Branco, enviou parecer ao STF defendendo a concessão de prisão domiciliar humanitária. A manifestação invoca o dever constitucional de preservação da integridade física do preso e argumenta que o monitoramento contínuo exigido pelo quadro clínico é incompatível com a estrutura penitenciária.

O ministro Alexandre de Moraes, relator do caso, já negou cinco pedidos da defesa e não fixou prazo para nova decisão. A melhora clínica pode alterar o cálculo judicial: se Bolsonaro mantiver recuperação estável, a tese de risco iminente à vida perde parte de sua sustentação fática.

Bolsonaro, condenado a 27 anos e 3 meses por tentativa de golpe, completou 71 anos na UTI no sábado (21).

PAUTINHAS

A Relatoria | Sua dose diária de inteligência jurídica. De segunda a sexta, no seu e-mail. Este conteúdo tem caráter meramente informativo e não constitui opinião legal.

Continue lendo